domingo, 24 de julho de 2016

Tecnologias, Educação e Crianças...

Não é difícil encontrar, especialmente em restaurantes, pais que liberam seus telefones aos filhos para que naveguem pela internet e assim possam fazer suas refeições em paz.
Confesso que isso funciona bem!
Só para deixar claro, não sou contra que crianças usem tecnologias para terem novas vivências. Existem bons exemplos de como a tecnologia pode servir como coadjuvante em vários aspectos educacionais de crianças. As principais vantagens constatadas na utilização de recursos tecnológicos na educação com os alunos são:
  • despertar da curiosidade
  • aumento da criatividade, principalmente nos casos de utilização no auxilio à aprendizagem de crianças deficientes
  • uma ferramenta poderosa no auxílio do aprendizado, como por exemplo a utilização de softwares educacionais (multimídia)

     Naturalmente, existem também as desvantagens, como uma provável superexposição dos nossos pequenos, especialmente se fazem uso de redes sociais e a dificuldade de abstração do conteúdo visto, ou seja, a possibilidade de que um conteúdo considerado impróprio ou não indicado para a idade venha a se tornar uma má influência comportamental dos nossos filhos.
    Honestamente penso que a tecnologia é um caminho de mão única avançando a passos largos para o uso cada vez mais frequente em todos os ambientes. Eu mesmo já fiz algumas experiências com meus alunos no ensino superior, utilizando um aplicativo (Socrative) o qual é destinado a realizar avaliações de conhecimento: elaborei algumas questões de prova que deveriam ser respondidas pelo aplicativo. Meu telefone recebia em tempo real as respostas dos alunos e já enviava uma planilha em formato excel para os email previamente cadastrados dos mesmos, para que pudessem ter ideia do seu aproveitamento. A experiência resultou em um relato de experiência, que foi submetido à uma revista especializada da área. 
    Na visão de boa parte dos alunos, foi uma bela experiência. "Inovadora" foi a definição mais utilizada. 
    Ao meu ver: uma avaliação capenga...mas que brilha os olhos de quem gosta de tecnologia. 
    É claro que as experiências devem ocorrer, afinal de contas as gerações apresentam características comportamentais diferentes e se a educação - e os educadores - conseguir acompanhar essas tendências contemporâneas, todos saem ganhando.
    Não obstante, o que está sendo feito na Finlândia, onde a escrita manual está sendo substituída pela escrita em tablets/notebooks (leia aqui) não me agrada. Acredito piamente que a restrição à utilização da escrita manual traga consigo algumas limitações no campo da motricidade fina e no desenvolvimento da linguagem simbólica por parte das crianças. Só o tempo poderá nos dizer a magnitude das contribuições e das consequências dessa inovação finlandesa.
    A escola que o Vicente frequenta costuma desenvolver projetos educacionais muito legais no transcurso do ano letivo.
    O projeto deste trimestre, bastante oportuno diga-se de passagem, é voltado ao uso racional das tecnologias. Na verdade acho que o título do projeto não é bem esse, mas prefiro acreditar que o objetivo seja essa conscientização e reflexão do uso das tecnologias (notebook, tablets, smartphones) tanto pelos pais quanto pelos alunos.
    Após um breve levantamento do uso de tecnologias das crianças, a escola propôs o Dia Sem Tecnologia: dia em que os pais que decidissem aderir à proposta deveriam proporcionar e participar conjuntamente de atividades que as crianças gostam...sem tecnologias.
    A proposta vem ao encontro da necessidade de gerenciar a quantidade e a qualidade do que nossos filhos assistem/jogam na internet. O Vicente, por exemplo, adora acessar o YouTube para assistir vídeos de trenzinhos de brinquedo. Peppa Pig, Relâmpago McQueen e assemelhados também tem sua atenção.
    Até pouco tempo atrás essa fascinação pelo telefone e consequentemente pela internet incomodava a mim e a Mara. Da fato ele passava bastante tempo "preso" naquela programação, especialmente em momentos antes de dormir. Tirar o telefone dele era bastante complicado e muitas vezes essa ação acabava em choro. Resultado: sono agitadíssimo.
    Hoje ele está maior, entende certas coisas com mais facilidade e vivencia uma gama muito grande de atividades tanto na escola quanto em casa e tem dias que ele simplesmente não faz uso do telefone para essa finalidade.
    Tenho em mente que essa nossa preocupação em restringir o acesso do Vicente à internet não é compartilhada por todos os pais. Cada um educa seu filho da maneira como lhe convém.
    A questão é mais abrangente: nossos filhos são os adultos de uma próxima geração. Uma geração que já nasce exposta. Tiramos fotos de nossos filhos antes mesmo de nascerem (na ultrosonografia) e publicamos no Instagram.
    Durante todo seu crescimento e desenvolvimento, a cada dentinho que nasce, cada tombo de bicicleta, cada gol na escolinha, sempre há um bom motivo para registrarmos o momento...e compartilharmos.
    Observando esse comportamento, que provavelmente será repetido pelos nossos filhos, a escola lançou o segundo ponto chave da proposta: uma campanha de conscientização voltada à segurança de nossos pequenos,especialmente na internet.
    Aqui em casa o Vicente gosta mesmo é do YouTube, mas isso não nos isenta de cuidados futuros e aproveitamos o Dia sem Tecnologia para fazermos atividades que ele gosta e até mesmo algo novo. Rolou desde montagem de blocos, passando pela ajuda na limpeza dos brinquedos guardados e terminando com a leitura do primeiro Best Seller (gibi do Chico Bento) do Vicente.
    Ao final da noite, momentos antes de dormir, Seu Vicente pediu cheio de delicadezas - daquelas que convencem qualquer um a fazer um negócio contra a vontade - para ver o Tutu (Thomas e seus amigos no YouTube).
    Nos rendemos a ele.
    O dia foi "quase" sem tecnologia, mas valeu a pena.
    Passar um tempo com as crianças, fazê-las experienciar novas situações é sem dúvida, um belo projeto, uma bela iniciativa.
    Forte abraço a todos.
    Roges e família.





    terça-feira, 12 de julho de 2016

    Há exatos 3 anos atrás...

    O teu riso - Pablo Neruda

    Tira-me o pão, se quiseres,
    tira-me o ar, mas não
    me tires o teu riso.

    Não me tires a rosa,
    a lança que desfolhas,
    a água que de súbito
    brota da tua alegria,
    a repentina onda
    de prata que em ti nasce.

    A minha luta é dura e regresso
    com os olhos cansados
    às vezes por ver
    que a terra não muda,
    mas ao entrar teu riso
    sobe ao céu a procurar-me
    e abre-me todas
    as portas da vida.

    Meu amor, nos momentos
    mais escuros solta
    o teu riso e se de súbito
    vires que o meu sangue mancha
    as pedras da rua,
    ri, porque o teu riso
    será para as minhas mãos
    como uma espada fresca.

    À beira do mar, no outono,
    teu riso deve erguer
    sua cascata de espuma,
    e na primavera, amor,
    quero teu riso como
    a flor que esperava,
    a flor azul, a rosa
    da minha pátria sonora.

    Ri-te da noite,
    do dia, da lua,
    ri-te das ruas
    tortas da ilha,
    ri-te deste grosseiro
    rapaz que te ama,
    mas quando abro
    os olhos e os fecho,
    quando meus passos vão,
    quando voltam meus passos,
    nega-me o pão, o ar,
    a luz, a primavera,
    mas nunca o teu riso,
    porque então morreria.


    Há exatos três anos atrás estávamos no hospital esperando o dia mais importante de nossas vidas.
    Estávamos esperando o Vicente.
    Ansiedade para ver o rostinho, as mãozinhas, os pezinhos!
    Vicente nasceu em uma manhã ensolarada de um dia 12 de julho, mesmo dia em que nasceu Pablo Neruda, o homem cujas palavras por muitas vezes rechearam de emoção os bilhetes apaixonados que a Mara e eu trocávamos logo no início do nosso namoro.
    Coincidência?
    Eu diria afinidade!
    Com seu jeito observador e sensível - como Neruda - não sei precisar quantas vezes me peguei pensando em minhas atitudes nem quanto esse menino mudou minha vida. 
    Só sei dizer que muitas vezes chorei e muitas outras sorri e gargalhei com ele ao meu lado. 
    Com ele e por ele tive que aprender a reconduzir minha vida. 
    Tive minha experiência paterna ao vivo, in loco com o Tente (o apelido carinhoso que demos a ele) e não foram poucas as vezes que tive que parar e refletir sobre nossa relação. Não foram poucas as vezes que parei para pensar em como não ser um pai ausente, autoritário, arbitrário e intransigente. 
    Vicente está crescendo, se desenvolvendo, falando e se tornando uma das pessoas mais importantes da minha vida. A pessoa que me deu a oportunidade (sim, porque eu não pretendia ter filhos até pouco tempo atrás) de dar e receber amor. 
    Nega-me o pão, o ar, a luz a primavera, mas nunca teu riso meu filho. Porque então morreria.
    Te amo meu filhote.
    Um beijo com o coração cheio de paixão e os olhos marejados de emoção.
    Teu papai Ozes (Roges)
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