Durante os 36 primeiros anos da minha vida, o segundo domingo de agosto era um dia melancólico.
Agora não é mais.
Eu diria que nos últimos 3 anos, esse mesmo domingo tem começado com a letra A.
A de agitado.
A de apaixonante.
A de alegria total.
Faz 3 anos que o Vicente chegou na nossa vida e pouco mais de 7 meses que a Helena veio encher de graça nossos dias. Particularmente, nunca fui tão feliz e também nunca estive tão enganado.
Até poucos anos não acreditava ser capaz de educar uma criança.
Motivo? Simples...meu pai nunca esteve comigo!
Meu pai foi ausente a vida toda. Nunca perdeu uma noite de seu rico sono com minhas febres ou com minhas cólicas. Em raros momentos nos aproximamos -sempre pela minha iniciativa- e se eu não atuasse firmemente para manter essa "proximidade" a distância imperava.
Assim a coisa degringolou. Hoje ele não faz mais parte da minha vida e consequentemente da dos meus filhos. Haverá um dia em que eles perguntarão do vô paterno e eu terei que ser franco em responder que ele nunca fez questão de fazer parte da vida deles.
Uma pena.
Meus filhos, particularmente o Vicente, me ensinaram que o modelo de educação que tive na infância não é necessariamente aquele que eles receberão. Ainda bem!
Mas esse texto não tem a intenção de ser triste.
Ao contrário. O que me motivou escrever estas linhas ao mesmo tempo em que assisto o Usain Bolt ser medalha de ouro nos 100m rasos no Rio 2016 é o fato de que pela primeira vez ganhei um presente de dia dos pais feito pelo Vicente.
Que orgulho!
Que emoção!
Uma medalha de Super Pai e um acessório para pendurar no vidro do carro com os dizeres: "Cuidado! Melhor pai do mundo a bordo" com uma mão do Vicente pintada. Fiquei emocionadíssimo. Ideia genial das profes da Escola de Educação Infantil Bambini, onde ele estuda.
No meu tempo - e isso faz tempo - as profes diziam:
"Hoje vocês vão fazer e pintar um desenho para dar de presente para os seus pais!".
Pintávamos gravatinhas em uma folha A4 e eu achava isso muito esquisito. Primeiro porque na época eu nem conhecia meu pai e segundo porque meu avô (que me educou) e meus tios não usavam gravata. Vai entender né.
Ontem pela manhã fui acordado de modo bastante sutil. Sim, o Vicente é bastante cavalheiro ao acordar a gente.
- Papai, olha!
Quando abri os olhos ele estava segurando a medalha e dizendo: "Põe!"
Passei o sábado todo com a medalha no pescoço e quando tirava ele me cobrava para recolocá-la imediatamente.
Ser pai é um presente.
Ser pai presente é a coisa mais digna que um homem pode fazer em sua trajetória, pois são seus filhos.
Sangue do seu sangue.
Parte dele próprio.
Parte de seu DNA que é passado adiante para as próximas gerações que povoarão e mudarão esse mundo injusto em que vivemos.
Um mundo onde milhões de crianças com pais vivos não podem comemorar esse dia tão belo pelo simples fato de que um adulto covarde se negou a aceitá-la como parte de sua história ou a tratou como um "acidente de percurso".
Para quem acha que ajuda apenas porque troca fralda, cuida durante a noite quando se está doente, leva ao médico, dá banho, só tenho a dizer que lamento muito pela sua visão obtusa de paternidade.
Isso não é nada mais do que a simples responsabilidade, afinal de contas, sem filhos não haveriam os pais.
Um forte abraço aos pais de verdade.
Roges e família