Ao contrário do que normalmente escrevo neste blog - peripécias do Vicente e da Helena - hoje pretendo comentar algumas coisas sobre os efeitos da paternidade em mim.
Não consigo acreditar naquelas pessoas que dizem que levam absolutamente a mesma vida depois de se tornarem pais e/ou mães.
Muita coisa muda.
Algumas para melhor, outras...
Uma das grandes frases que ouvi quando esperávamos o Vicente - e olha que todo mundo acha que pode emitir opiniões na gravidez alheia - foi de um de meus ex-alunos de hidroginástica que já faleceu. Uma tarde, no meio da aula ele me disse que uma pessoa que não percebe a dimensão das mudanças que um filho causa, é incapaz de perceber que o mundo não gira mais ao redor do próprio umbigo. Achei aquele comentário tão verdadeiro e impactante que decidi tentar observar quais seriam as mudanças que a chegada de um filho provocaria em mim.
Antes de me tornar pai, eu acreditava que as coisas eram muito simples. Acostumado a lidar com adultos, imaginava que tudo que se relacionasse a uma criança era questão de estímulo e resposta. Ao melhor estilo Pavloviano.
Se ela chorasse ou algo do tipo, bastava verificar o que estava acontecendo.
Era grave? Sim? Dava atenção!
Não era grave? Deixaria chorar...uma hora ela iria parar!
Esse pragmatismo sempre foi um traço da minha personalidade e sou obrigado a confessar que em muitas situações não obtive o sucesso que desejava, exatamente por não ter uma diplomacia, um jogo de cintura necessário para alcançar o êxito.
Essa suposta falta de diplomacia, especialmente com o Vicente me colocou em situações delicadas, as quais tive que pedir ajuda externa.
Minha educação, pelo menos nos primeiros anos, foi bastante rígida. Fui educado pelos meus avós maternos, sem a presença do pai. Junto com eles moravam também alguns tios que de certo modo assumiram a tarefa de me "educar". Educar entre aspas mesmo!
Muitas vezes tomei puxões de orelha e cascudos - de alguns deles.
Até hoje não sei bem o motivo, mas acredito que era porque eu queria fazer alguma coisa...que eles não queriam.
Realmente eu era uma peste, uma criança perigosa. Tão perigosa que quando inventava de querer saber alguma coisa (curioso) ou ir junto com alguém para qualquer lugar (metido), ganhava uns cascudos ou se a coisa fosse séria mesmo, era colocado na "cadeia". Leia-se trancar em um quarto e deixar chorar até se acalmar.
Tudo em nome da "obediência".
Em outras situações, simplesmente me mandavam pra casa. Meu avô tinha um supermercado e eu adorava ir lá. Bastava eu pedir uma coisa ou aprontar uma das minhas e pronto! Lá vinha um dos meus tios me mandar pra casa e avisar que à noite íamos conversar sério. Normalmente, ganhava um presente: castigo!
Que saco ser criança assim!
Os mais antigos dirão que também apanhavam e tomavam cascudos e nem por isso tem traumas.
Que bom pra eles!
Sem dúvida é um ótimo argumento para continuar descendo a mão nas crianças ou colocá-las de castigo só porque tem curiosidades e comportamentos, quem diria, de crianças!
O fato é que essas e outras experiências estavam bastante presentes em mim e em momentos de insegurança, de não saber o que fazer, comecei a agir de modo bastante ríspido e por vezes intransigente com o Vi.
Não, eu nunca bati nele, tampouco coloquei o baixinho de castigo.
Trancá-lo num quarto como aconteceu algumas vezes comigo, nem pensar. Não suporto gente que faz isso com seus próprios filhos.
O Piangers me disse uma vez que a beleza de ser pai está na possibilidade de ser amigo e que a austeridade só nos afasta dos pequenos.
Tem toda a razão!
Em uma determinado momento, há aproximadamente 1 ano atrás a Mara me chamou para conversar e disse muitas verdades que eu insistia em acobertar. Que eu insistia em arrumar argumentos para não ver.
Da minha parte, muito choro e muita culpa!
No outro dia, decidido, procurei ajuda. Fui até uma psicóloga.
Ontem à noite perguntei para a Mara se ela notava alguma diferença em mim, neste ano que se passou. Fiquei feliz com o que ela disse e mais feliz estou hoje
porque as palavras da psico me maltrataram e me fizeram perceber que ela não poderia me ajudar, apenas me mostrar algumas possibilidades para que eu pudesse ser aquilo que desejava: pai e amigo do meu filho!
Me olho no espelho hoje e sinto vergonha das vezes que alterei minha voz para querer que uma criança se curvasse diante de mim. Não quero carregar isso, não preciso disso na minha vida. O que eu preciso é de tranquilidade e isso não se ensina aos pais de primeira viagem. É necessário passar pelas situações para aprender. E o aprendizado ocorre pelo amor ou pela dor. A escolha é nossa.
Os erros são comuns e frequentes, mas quando se tem bons modelos, tudo fica mais fácil.
Um abraço emocionado e sem culpa.
Roges

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