Surpresas o tempo todo!
Essa é a rotina aqui em casa.
Desde que nasceu, o Vicente nos surpreende. Aliás, até para nascer o Vi nos surpreendeu. Veio um pouco antes do previsto o danado.
Esse final de semana estava pensando sobre o que escrever aqui e como não tenho nenhuma preocupação com uma "produção literária" significativa, deixei as coisas acontecerem para ver o que dava. Conversando com a Mara sobre o modo como ele se relaciona e resolve seus problemas, pude perfeitamente observar que ele tem meu gênio - irritado e explosivo - quando as coisas não acontecem como planejadas. Em outros momentos contemporiza pequenos objetos com a serenidade de uma bebê recém nascido e ainda em outras situações demonstra um afeto para conosco de uma maneira que eu nunca consegui observar em outra criança.
Como já comentei em outras postagens o Vi está adaptando em uma nova escola e as coisas estão fluindo bem. Bem demais!
Naturalmente como todo pai de primeira viagem, acredito que a preocupação com o desenrolar das situações que envolvem nossos filhos muitas das vezes tendem a rumar para o pior desfecho possível.
Ora, mas qual o problema das coisas darem certo assim, na primeira vez?
Simples. Na tentativa de não sofrer com o resultado, sofremos por antecedência fazendo com que nossos filhos não aprendam com suas próprias experiências. Regra básica da incoerência paterna!
E isso é algo que se aprende diariamente, no amor ou na dor. A escolha é nossa.
Ficamos, Vicente e eu, aproximadamente 10 dias na romaria diária de ir para a escola no intuito de que ele se adaptasse. Chegávamos, eu o estimulava a se deslocar pela escola, interagir com os colegas, brincar, etc... Ele fazia isso e muito mais com extrema maestria, porém, quando a situação exigia que ele se enturmasse e interagisse com quem quer que fosse, voltava correndo para o colo do "Gege".
A questão é óbvia.
Por que me expôr, se tenho meu protetor por perto, que além de me dar abrigo ainda sorri como um bocó com minhas peraltices?
O Vi é louco de esperto. Percebeu na primeira semana que eu não o deixaria passar por outra situação como aquela que aconteceu na outra escola. E, mais uma vez, com seus olhinhos castanhos, sua fala mansinha e seu sorriso meigo, me manipulou.
Ele adora o pátio da escola, mas para ter certeza de que não precisará correr nenhum risco para aproveitar aquele espaço que é seu sonho de consumo, usa uma estratégia digna de James Bond. Chega na porta que dá acesso ao pátio e joga um dos seus carrinhos no gramado. Aguarda um tempo para ter certeza de que ninguém se atreverá a pegar e depois, com uma dissimulação invejável, faz cara de quem, sem opção, precisa buscar seu brinquedo, cara de quem "precisa ir até o pátio buscar seu brum brum".
À primeira vista parece uma atitude manhosa, birrenta, de criança que faz isso de propósito para que alguém lhe sirva. Mas conhecendo bem a figura é possível reconhecer que essa é apenas uma de suas estratégias para poder explorar o ambiente sem correr nenhum risco, pois se alguém resolver juntar o carrinho e lhe devolver, ele fica extremamente irritado. Resumindo: sua tática foi por água abaixo!
Assim ele fez no primeiro, segundo, terceiro, todos os dias em que fomos lá.
A engenhosidade com que ele elabora sua estratégia de defesa e resiliência é uma questão básica e simples que todo ser humano tem: a sobrevivência.
Não lembro dessa minha fase, mas acredito que com 2 anos eu ainda comia areia!
Outra situação que me deixou de queixo caído foi uma tarde na pracinha. Ele foi com a babá até uma pracinha perto de casa. Chegando lá, encontrou um semelhante - outro menino com aproximadamente a mesma idade. Ambos se olharam e como não poderia acontecer de outro modo, quiseram o brinquedo do outro. Numa atitude de cordialidade e diplomacia, trocaram seus respectivos carrinhos, brincaram cada um à sua maneira e ao final, o amigo devolveu o brinquedo do Vi e pegou o seu, pois estava na hora de ir pra casa.
Não sei se isso acontece a todo momento, mas para mim, é possível que muitos adultos racionais e esclarecidos não ajam dessa maneira. O que dirá crianças com menos de 2 anos!
Vicente está, do seu jeito e com algumas limitações é claro, elaborando suas estratégias de sobrevivência. Essa é para mim uma conquista sem igual para sua formação como sujeito.
O danado está crescendo e se virando.
E nós, percebendo que ele logo vai sair dos nossos colos e ganhar o mundo.
Filhos são surpreendentes não é mesmo?
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