Para ser sincero, fico impressionado com a capacidade que ele tem de se apegar a certas coisas. Por outro lado, assim como se fixa em algo logo desapega. Vida que segue, deve pensar.
Quando bem pequeno ele tinha uma fascinação por coisas minúsculas: botões, insetos, enfim, tudo que fosse bem pequenininho chamava sua atenção. Eu achava aquilo bastante intrigante, afinal de contas, com tanta coisa ao redor para ser vista e explorada, era fascinante vê-lo perder longos minutos observando aquelas coisinhas.
Conforme foi crescendo outros objetos foram compondo sua lista de predileções. Épocas passadas ele vivia com uns brinquedinhos que pareciam uma espécie de botões. Sempre aos pares, um para cada mão. Não largava para nada, levava até pro banho.
Uma coisa que nunca estimulei foi que o Vicente brincasse com bolas.
Casa de ferreiro, espeto de pau, dirão alguns.
Bolas são fascinantes para quase todas as crianças. O problema é que não tenho muita afinidade com elas e por isso acabei deixando que o Vi descobrisse por si só a beleza e o prazer de bater uma bolinha. Longos dias e noites correndo pra lá e pra cá e chutando uma bola velha, que minha mãe deu pra ele. Se não me engano era do meu irmão Yan.
Um domingo fomos a Caxias comprar fraldas no hipermercado e o Seu Vicente não parava no carrinho, queria perambular pelo ambiente. Numa das suas incursões por entre os corredores, o danado chegou até o local onde estavam expostos seus sonhos de consumo - as bolas, ou melhor, na linguagem do Vi, o "gol gol"!
Olhos brilhando, boca aberta!
Essa é a melhor definição daquela cena espetacular, do encontro do menino com seu objeto de desejo. Vários objetos, diga-se de passagem!
Foi a primeira vez que vivenciei na prática o que alguns pais sentem quando seus filhos disparam sem freios pela loja de brinquedos adentro. Tive que comprar o bendito "gol gol". E assim, num piscar de olhos, ele contabilizava 2 bolas e às vezes ficava irritado porque não conseguia brincar com ambas ao mesmo tempo. Era de chorar de rir!
Outro dia fomos no aeroclube aqui de Garibaldi observar os aviões que decolavam e aterrizavam. O momento foi de êxtase. Ele chamou a atenção de todos por lá cada vez que um avião subia ou descia. Fomos no hangar e ele dizia repetidamente: "Uaaaau"!
Aos poucos o fascínio com alguns brinquedos vai sendo substituído por outros. Depois das bolas vieram os carrinhos, tratores, motos e a paixão do momento são os trens, ou melhor, "Tutu"!
Seja de brinquedo ou na TV o Tutu é o dono do campinho.
Aqui em Garibaldi a Maria Fumaça costuma passar duas a três vezes por semana e como moramos próximos à estação do trem, dá pra ouvir o apito de longe. Basta a Maria se aproximar da cidade apitando que o Seu Vicente já levanta o dedo indicador e fala: Tutu!
Independente do que esteja fazendo, corre pra área dos fundos ou em qualquer janela que dê para observar a passagem do trem. É uma alegria sem nenhum constrangimento, tão inocente, tão sincera que chega dar inveja.
Inveja não, vergonha!
Quando o trem passa observo a felicidade do Vicente. Ele lá sorrindo com aquela situação cotidiana, com a simples possibilidade de poder ver uma máquina que solta fumaça e apita. Fico imaginando porque nós adultos vamos perdendo essa ternura, essa fantasia conforme ficamos mais velhos. É uma pena que vamos endurecendo com o tempo, que não consigamos mais sorrir com a simples passagem de um trem. É uma pena que isso aconteça conosco.
Tenho muito a aprender com meu filho!
O auge desse momento ocorre quando o trem passa e solta no ar aquela cortina de fumaça que sai da chaminé.
E logo vem a depressão. Assim que a Maria vai sumindo, a tristeza toma conta. Ele suspira e cheio de sentimento dispara: "Ah, não!"
Fica triste quando ela vai embora.
Quem de nós, adultos, fica triste quando um trem com pessoas que nunca vimos vai embora? Só mesmo uma criança para nos dar esse estalo na consciência. Para nos mostrar que as coisas simples e rotineiras têm sua beleza e que elas valem a pena.
Isso é mágico!
Isso é revigorante!
Pensando bem, o Vi tem razão em se afeiçoar ao Tutu!
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